CENA XI

Em Londres: feira entre o rio Tâmisa e a Torre de Londres. Uma porção de gente, colorida e barulhenta, anda de um lado para outro. Adão, com os traços de um homem maduro, tendo a seu lado Lúcifer, de um dos bastiões da Torre, observa a multidão. Cai a tarde.

CORO
(de vozes que se misturam com o rumor da multidão, com acompanhamento de música disereta)
- Ruge o oceano da vida.
Cada onda é mais um mundo:
por que chorar a que some?
Por que temer a que aflora?
Temes, às vezes, que a massa
aniquile o indivíduo,
ou que um potentado, às vezes,
venha a pisar os milhões.
Choras num dia a poesia
e no outro dia a ciência,
como quem quer enquadrar
vagalhões num gradeado:
podes teimar e lutar,
que só água hás de tirar
do majestoso oceano
que ruge e que ri de ti.
Dos seus limites não sai
e nele nada se perde:
sempre velho e sempre novo,
é a própria vida em roldão;
ouve-lhe a bela canção!

ADÃO
- É o que eu sempre sonhei. Até agora
andei errante por um labirinto,
mas vejo a vida aberta em minha frente
e escuto a canção dela: como é bela!

LÚCIFER
- Ouvido assim do alto, como os hinos
de igreja, qualquer som rouco ou suspiro
chega às alturas como melodia,
e assim os ouve Deus, acreditando
que o mundo que Ele fez está bem feito.
Mas embaixo, onde o coração batendo
interfere também, se ouve outra coisa.

ADÃO
- Cético e zombador: pois este mundo
não é mais belo que todos aqueles
por onde me levaste? Desabaram
os grossos muros cobertos de musgo,
sumiram-se os espectros horrorosos
em que o passado põe santas auréolas
e os deixa para aflição do futuro.
É um campo livre que se abriu à mente:
nada de escravos erguendo pirâmides!

LÚCIFER
- Nem do Egito o gemido dos escravos
chegaria tão alto. E, apesar disso,
quantas obras magníficas deixaram!
E em Atenas o povo soberano
não procedeu com bela dignidade
quando sacrificou um de seus próceres
para salvar a pátria de um perigo?
Basta olhar-se de cima, sem o incômodo
de choros de mulher e outras bobagens.

ADÃO
- Cala-te! Cala-te, eterno sofista!

LÚCIFER
- Mas, ainda que se calem os soluços,
em lugar deles tudo é tão mesquinho!
Onde a altura que atrai? O abismo hiante?
Oude a doçura multicor da vida?
Em vão se busca o mar brilhando ao Sol:
o que há é um pântano, cheio de sapos.

ADÃO
- Mas, em compensação, há o bem do povo.

LÚCIFER
- De cima do teu pedestal, tu julgas
a vida que se contorce a teus pés,
assim como a História julga o passado:
sem os gemidos, sem as vozes roucas,
do passado registra o canto apenas.

ADÃO
- Ora: até Satanás fica romântico
ou doutrinário! É uma grande conquista!

LÚCIFER (apontando para a Torre)
- Pois não é de espantar, quando se está
diante desse espectro, contemplando
o mundo antigo, no limiar do novo.

ADÃO
- Essa visão carcomida, eu dispenso;
e desço resoluto ao mundo novo,
sem temer não achar nas ondas dele
a grandeza de idéias e a poesia,
que talvez não se manifestem mais
em lutas de titãs a estremecer
o céu, mas hão de instituir um mundo
mais atraente e mais abençoado
na modéstia de suas expressões.

LÚCIFER
- Se temesses por elas, vã seria
a tua angústia. Enquanto houver matéria,
também se há de sentir o meu poder,
que, em negação, a vive combatendo.
E enquanto houver cabeça e coração,
e houver ordem reprimindo o desejo,
no mundo espiritual hão de brotar,
em negação, idéias e poesia.
Mas, dize-me: que forma tomaremos
quando descermos a essa turba inquieta?
Como estamos, só podemos ficar
aqui, junto aos sonhos dos tempos idos.

ADÃO
- Qualquer forma. Por obra do Destino,
já não existem formas superiores.
Para sabermos o que o povo sente,
é necessário descermos a ele.
Entram os dois na Torre, de onde saem, pouco depois, vestidos de operários, inisturando-se à multidão junto à tenda de um Titereiro, que tem a seu lado, preso por uma corrente, um macaco de casaca vermelha.

TITEREIRO
- Por aqui, meus senhores! Por aqui!
O espetáculo já vai começar!
É uma comédia das mais engraçadas:
mostra como a serpente engazopou
a primeira mulher, já curiosa,
e como foi que a mulher pôs o homem
numa sinuca, desde aquele dia…
Vão ver também o macaco imitando
um homem cheio de dignidade…
E o urso como professor de dança…
Venham, senhores! Venham! É aqui mesmo!
Pessoas aglomeram-se à entrada da tenda.

LÚCIFER
- Heim, Adão? É de nós que estão falando!
Não é uma graça viver-se um papel
que, depois de seis mil anos passados,
ainda faz rir a mocidade alegre?

ADÃO
-- Brincadeira sem graça! Vamos indo!

LÚCIFER
- Sem graça, dizes? Vê como diverte
a esses moços saudáveis, que ainda há pouco
cochilavam na escola ouvindo Nepos!
Quem nos dirá quais os que têm razão:
os que começam a ingressar na vida
convencidos do seu próprio vigor,
ou os que dela vão-se despedindo
já de miolo gasto e enfraquecido?
E o que será mais belo: tu, com Shakespeare,
ou eles, com toda a deformação?

ADÃO
- Essa deformaçâo é que me dói.

LÚCIFER
- Não podes esquecer o mundo grego…
Vê bem: eu, que sou pai, ou talvez filho
- entre espíritos, pouca é a diferença -
do romantismo, a corrente da moda,
gosto muito dessas deformações,
cara de homem, nariz de macaco,
sentimentos trocados, trapos nobres,
fala pudica em boca de rameira,
incenso aos pés do reles e do vil,
um devasso que maldiz a luxúria…
Com isso, esqueço o reino que perdi
e em novas formas vivo a renascer.

TITEREIRO (batendo no ombro de Adão)
- Esse é o melhor dos lugares. Quanto pagou?
Ninguém faz graça de graça, meu caro
a não ser quem se enforca de enjoado…
Adão e Lúcifer põem-se de lado. Aproxima-se uma Menina, que vende violetas.

MENINA
- Violetinhas! As primeiras mensageiras
da primavera! Comprem violetas!
São flores que à órfã dão alimento,
e aos mais pobres dão lindos ornamentos!

UMA MÃE (comprando um amarrado de violetas)
-- Vou pôr umas na mão do meu filhinho morto…

UMA MOÇA (comprando outro amarrado)
- Vou pôr umas de enfeite em meus cabelos pretos…

MENINA
- Olha a violeta! Quem quer violetas? (Passa.)

JOALHEIRO (em sua tenda)
- Essa idiota nos faz concorrência:
as flores nunca estão fora de moda,
embora um belo colo exija pérolas
que alguém foi ao mais fundo mar pescar,
todos os monstros ousando enfrentar?
Duas Moças da pequena burguesia passeiam juntas.

MOÇA 1
- Lindas fazendas! E que jóias caras!

MOÇA 2
- Se alguém nos desse algumas de presente, heim?

MOÇA 1
- Isso, os homens de agora só fariam
com intenções inconfessáveis, acho…

MOÇA 2
- Nem assim: já perderam todo o gosto,
com tanto caviar e meretrizes…

MOÇA 1 (referindo-se a Adão e Lúcifer)
- Tão convencidos, que nem vêem a gente…

MOÇA 2
- Ou tão tímidos que nem querem ver…
As duas Moças vão passando. Sob um caramanchão vêem-se operários que bebericam. Ao fundo, música e dança. Soldades, burgueses e homens do povo, divertemse olhando os outros.

TAVERNEIRO (entre os fregueses)
- Alegria, senhores! O ontem foi-se
e o amanhã jamais alcançaremos!
Diz a Bíblia: “Deus dá comida aos pássaros”
e também diz que “tudo é vaidade”…

LÚCIFER
- Gosto de ouvir essa filosofia:
fiquemos neste banco, à sombra, vendo
como é que o povo se diverte tanto
e sem gastar muito dinheiro em vinho
ácido e música desafinada.

OPERÁRIO 1 (sentado à mesa)
- Podem crer: o Diabo fez as máquinas
para arrancar o pão das nossas bocas!

OPERÁRIO 2
- Se nos deixa a bebida, que mal faz?

OPERÁRIO 1
- E esses ricos têm parte com o Diabo:
sugam o nosso sangue! Se algum deles
me aparecesse agora, eu o mandava
para os quintos do Inferno. O que faz falta
são mais exemplos como o do outro dia…

OPERÁRIO 3
- Que lucraríamos? Aquele vai
ser enforcado hoje, mas o nosso
destino vai continuar o mesmo.

OPERÁRIO 2
- Bobagens! Se um ricaço aparecer,
eu não vou maltratá-lo: vou sentá-lo
bem aqui, do meu lado, e vamos ver
quem é mais gente e ri com mais prazer.

TAVERNEIRO (a Adão)
- Às ordens! O que deseja o senhor?

ADÃO
- Eu? Nada.

TAVERNEIRO
      - Pois então saiam da mesa,
seus malandros! Pensam que o meu dinheiro
eu ganho pondo a mão no bolso alheio
ou com mulher e filhos mendigando?

ADÃO (levantando-se)
- Como se atreve…?

LÚCIFER (apartando)
      - Deixa esse infeliz!

ADÃO
- E a toda hora e é em todo lugar
o homem baixando ao nível do animal?

LÚCIFER
- Aqui estou tendo o que sempre busquei:
gente a se divertir, sem preconceitos…
Esta algazarra, estas risadas rudes,
a bacanal em fogo a se acender
pondo rosas nas faces antes pálidas:
a fantasia encobrindo a miséria:
não é maravilhoso?

ADÃO
      - Me dá nojo!
Passeando, os dois alcançaram o grupo dos dançarinos.
Aproximam-se dois Mendigos, brigando.

MENDIGO 1
- É meu o lugar: veja a minha “licença”!

MENDIGO 2
- Tenha pena de mim, senão eu morro!
Há duas semanas que não, trabalho.

MENDIGO 1
- Então, nem és mendigo de verdade:
és um lambão! Vou chamar a polícia.
O Mendigo 2 sai às pressas. O Mendigo 1 ocupa o lugar.
- Pelas chagas de Cristo, uma esmolinha,
senhores, para um pobre sofredor!
Um Soldado tira a moça que estava dançando com um Artesão.

SOLDADO
- Cai fora, lambisgóia! Estás pensando
que és gente?

ARTESÃO 1
      - Queres ver? Eu já te mostro!

ARTESÃO 2
- Não discutas cum ele, deixa disso!
Está com a faca e o queijo nas mãos!

ARTESÃO 1
- Mas tem que vir fazer pouco de nós?
Já não nos chupa o sangue, o sanguessuga?
Uma Mundana põe-se a cantar.

MUNDANA (cantando)
- Antigamente,
para ganhar uma maçã dourada.
era preciso
vencer dragões numa luta danada.
Já hoje em dia
o que não falta são lindas maçãs,
e não se sabe
em que lugar meteram-se os dragões.
Bobo é aquele
que olha as maçãs no meio da folhagem
e não as colhe
por timidez ou falta de coragem.
A Mundana abraça-se a um Jovem da multidão.

LÚCIFER (absorto a contemplar o espetáculo)
- Gosto de ver essa sem-vergonhice.
Que o rico exiba os tesouros que tem!
No cofre em que se senta o avarento,
tanto pode haver ouro quanto areia.
Comovem-me os ciúmes desse moço:
como ele segue o olhar da namorada…
Ao momento presente dá valor,
embora saiba que ela irá mais tarde
para os braços de outro - mas, que importa?

ADÃO (a um Músico)
- Por que maltratas a arte assim, meu caro?
Não tens prazer nisso que estás tocando?

MÚSICO
- Nem um pouco. Ao contrário: é um sacrifício,
todo dia, tocar a mesma coisa,
e ver como essa turma se diverte…
Até no sonho estes sons me perseguem,
mas, que fazer? É preciso viver!
E nenhuma outra coisa eu sei fazer.

LÚCIFER (sempre observando a multidão)
- Quem haveria de supor tamanha
sensatez, na inquieta mocidade?
Aquela jovem sabe que o momento
que goza não é o último da vida,
e, enquanto beija o rapaz, com o olhar
já vai buscando uma outra ligação…
Ah, crianças, que alegrias me dais
com o que, sorrindo assim, fazeis por mim!
Faço questão de vos dar minha bênção:
sejam convosco o pecado e a aflição!

ARTESÃO 2 (cantando)
- Quem, de coração alegre,
com vinho e beijos, dá adeus
à semana de trabalho,
pode rir até do Diabo!
Ouvem-se os acordes finais de uma música sacra. De uma igreja, vem saindo Eva, como uma mulher da burguesia, trazendo seu livro de orações e um buquê de flores, em companhia de sua Mãe.

VENDEDOR 1
- Por aqui, linda senhorita! Aqui!
Ninguém lhe pode vender mais barato!

VENDEDOR 2
- Não acredite: ele rouba no peso
e só tem coisa velha! É aqui, moça!

ADÃO
- Por que me trazes a este canto, Lúcifer,
se passa ao longe, quase impercebida,
quem me pode salvar, em carne e osso?

LÚCIFER
- Isso não é nenhuma novidade…

ADÃO
- Vem saindo da igreja! E como é bela!

LÚCIFER
- Foi lá para ser vista e se mostrar.

ADÃO
- Não a toques com teu cinismo frio:
ela ainda traz uma prece nos lábios!

LÚCIFER
- Já te vejo convertido em beato…

ADÃO
- Fraca, a piada! Se o meu peito é frio,
tanto pior para mim; mas no seio
da mulher é preciso que haja fé,
sacrossanta poesia do passado,
e essa pureza de flor intocada.

LÚCIFER
- Mostra-me, então, essa coisa do céu!
Pois nem de Satã podes exigir
que te adivinhe, a cada instante, os gostos.
basta que te ajude a satisfazê-los.

ADÃO
- Que outra coisinha poderia ser
senão aquela jovem?

LÚCIFER
      - Assim fala
o picapau, prelibando a minhoca;
olha em redor gulosamente e julga
que é o melhor petisco deste mundo,
enquanto o pombo olha aquilo com nojo.
É assim que o homem acha a salvação,
muitas vezes, precisamente, lá
onde a outros parece estar o Inferno.

ADÃO
- Que pureza de virgem! Que virtude!
Eu nem tenho coragem de abordá-la.

LÚCIFER
- Vamos: não és nenhum principiante
com as mulheres, e, se olhares bem,
verás que ela também terá seu preço!

ADÃO
- Cala-te!

LÚCIFER
- Talvez custe mais que as outras…
Enquranto isso, um Jovem aproxima-se timidamente de Eva e lhe estende um coração feito com pão-de-mel.

JOVEM
- Queira dignar-se aceitar, senhorita,
de minha mão, esta humilde lembrança!

EVA
- Bondade sua, Artur, pensar em nós.

MÃE
- Faz tempo que o não vemos. Vá lá em casa!
Os dois conversam em voz baixa. Adão olha-os com enfado, até que o Jovem se despede.

ADÃO
- Esse menino imberbe então teria
o que meu coração almeja em vão?
Com que doçura ela fala com ele,
suspirando e sorrindo… Ah, que tortura!
Eu vou falar com ela!
Adão acerca-se de Eva, e ouve o comentário da Mãe dela.

MÃE (a Eva)
      - Os pais de Artur
são ricos, realmente, mas não sei
o que acham dele namorar contigo.
Por isso, é bom não descuidares muito
do outro, que hoje também te deu flores.

ADÃO
Permitem que lhes faça companhia,
para não serem mais incomodadas
em meio à multidão?

EVA
      - Que atrevimento!

MÃE
- Pode ir andando, seu intrometido!
Pensa que minha filha é dessas moças
a quem qualquer um diz frases bonitas?

ADÃO
- Que outra coisa dizer-lhe? É a perfeição
feminina com que sempre sonhei.

MÃE
- Sonhar, pode sonhar o que quiser.
Mas os encantos dela não são flores
para qualquer vagabundo colher.
Adão fica perplexo. Uma Cigana aproxima-se de Eva.

CIGANA
- Que beleza de moça! Que beleza!
Deixa-me ler sua mãozinha branca?
Posso contar as infinitas bênçãos
da sorte, que hão de fazê-la feliz…
Lendo a mão que Eva lhe estende:
Um lindo noivo à espera… e bem pertinho!
Bonitos filhos, fortuna e saúde! (Recebe dinheiro.)

LÚCIFER (indicando Adão)
- Irmã, leia a sorte do meu amigo!

CIGANA
- Não vejo bem: não sei se é fome ou forca…

ADÃO (a Eva)
- Formosa dama, não me deixe assim:
seu coração foi feito para mim.

EVA
- Mamãe, mamãe!

MÃE
      - Eu vou chamar um guarda…

EVA
- Pode deixar: talvez tome juízo.
E não me fez nenhum mal, afinal.
Afastam-se Eva e a Mãe.

ADÃO
- Santa poesia, é assim que vais embora?
Cada vez mais prosaico fica o mundo!

LÚCIFER
- Não, não! E o coração de pão-de-mel,
as flores, a dança, o caramanchão:
não são também poesia? Que mais queres?
O que não falta são razões de sonho.

ADÃO
- Que adianta, se a tudo se mistura
o desejo de lucro, a vã cobiça?
Não há desinteresse em parte alguma.

LÚCIFER
- Talvez haja nos bancos escolares,
onde a vida ainda não fez seus estragos…
Olha: aí vêm chegando alguns alunos!
Aparecem Estudantes, passeando.

ESTUDANTE 1
Alegria, moçada! Para trás
o mofo! A gente quer é diversão.

ESTUDANTE 2
- Ao ar livre! A cidade me aborrece
com a rotina e o mundo dos negócios.

ESTUDANTE 3
- Vamos ver se arranjamos uma briga:
briga é que é divertimento de homem!

ESTUDANTE 1
A gente pega uns desses mercenários,
tira as garotas deles… E o pau come!
Depois a gente vai passear com elas…
Dinheiro, para a música e a cerveja,
nós temos. E assim, com nossos troféus,
vamos passar uma noite de príncipes!

ESTUDANTE 4
- Isto é que é: dar duro no burguês!

ESTUDANTE 1
- Para apertar os laços da amizade,
vamos nos divertir, hoje, a valer!
Dia virá em que, servindo à pátria,
nosso valor ache campo mais nobre.
Passam adiante.

ADÃO
- Bela visão, num mundo tão mesquinho:
sinto as sementes de um tempo melhor.

LÚCIFER
- De tais sementes, já vais ver o fruto,
tão logo assente o pó da sala de aula:
os dois industriais que aí vêm vindo
foram, em jovens, iguais aos de agora.
Aproximam-se dois Industriais, conversando.

INDUSTRIAL 1
Eu não agüento mais a concorrência,
todos preferem o que é mais barato:
tenho que rebaixar os meus produtos.

INDUSTRIAL 2
- Acho melhor reduzir os salários.

INDUSTRIAL 1
- Mas, como? Os empregados já reclamam
que não podem viver com o que ganham…
E não deixam de ter certa razão.
Mas quem manda fazerem tantos filhos
e umas famílias cada vez maiores?

INDUSTRIAL 2
- Então é preciso exigir mais, deles:
fazê-los trabalhar parte da noite…
Se eles não usam bem a noite inteira,
para sonharem meia noite basta.
Passam adiante.

ADÃO
- Nojentos! Por que mos fizeste ver?
Me diz: que fim levou aquela moça?
É tempo de mostrares teu poder,
fazendo com que ela afinal me ouça!

LÚCIFER
- Lúcifer não gasta energia à toa.

ADÃO
- À toa, dizes? Para mim, é tudo!

LÚCIFER
- Então, vai: sê feliz! Mas, rédea curta
ao coração! Mentir, ao natural!
Responde ao que eu pergunto, e já a terás.
Em voz alta, para que os possa ouvir a Cigana que os observa.
Então, milorde, vê como é arriscado
pôr um disfarce e misturar-se à plebe?
A cada passo somos maltratados.
Se soubessem que quatro barcos nossos
devem chegar das Indias ainda hoje,
já nos acolheriam de outro jeito.

ADÃO
- É possível.

CIGANA (à parte)
      - Que rica descoberta!
A Cigana dirige-se a Adão:
- Senhor, eu percebi o vosso disfarce
e vos puni com minha profecia,
porque segredos para mim não há:
Satanás é meu velho conhecido!

LÚCIFER (à parte)
- Bruxa velha, era só o que faltava!

CIGANA
- Ainda hoje vereis vossos navios
e uma outra coisa mais interessante:
linda mocinha, que sonha convosco!

ADÃO
- Como a terei?

CIGANA
      - Ela já é quase vossa.

ADÃO
- Repeliu-me…

CIGANA
      - E por isso há de ser vossa:
dentro em pouco há de estar aqui, de volta,
contanto que vos lembreis da adivinha…
Sai a Cigana.

ADÃO
- Lúcifer, essa aí te passa a perna!

LÚCIFER
- Não lhe contesto os méritos notáveis,
quando o trabalho é para Satanás.
Entra um Charlatão, com uma carreta, ao som de clarins, e faz ponto no meio da cena, rodeado de muita gente.

CHARLATÃO
- Abram caminho aos meus cabelos brancos
ganhos nas lides árduas da ciência,
quando incansavelmente eu pesquisava
segredos íntimos da Natureza!

ADÃO
- Que estranho mentecapto é esse, Lúcifer?

LÚCIFER
- A ciência faz-se de charlatã
para poder viver: como tu mesmo,
quando vivias posando de sábio.
Só que hoje é necessário mais barulho.

ADÃO
- Eu nunca fiz uma zoada assim…
Fora com ele!

LÚCIFER
      - A culpa não é dele,
se, por temperamento, ele não quer
na pedra tumular este epitáfio:
“Ex gratia speciali
mortuus in hospitali.”
Aos outros ele deu dias e noites
de vida, e agora espera recompensa.

CHARLATÃO
- Cansei me pelo bem da humanidade,
e eis aqui o glorioso resultado:
neste frasco o elixir da longa vida,
que remoça os idosos e os doentes!
Aqui a poção mágica de Tancredo!
Aqui o cosmético da bela Helena!
E este livro: a “Astrologia” de Kepler!

ADÃO
- Estás ouvindo? A luz que nós buscamos
no futuro, ele encontra no passado.

LÚCIFER
- O presente é que nunca se respeita:
como, na própria alcova, um grande homem…
Da esposa, após dez anos de casados,
sabemos até as sardas que ela tem…

CHARLATÃO
- Comprem! Comprem! Não vão se arrepender:
jamais terão igual ocasião.

VOZES NA MULTIDÃO
- Me dê um! Qualquer um, desses, me serve!
- Que sorte, a nossa! - Autêntica pechincha?

LÚCIFER
- Vé só esta gente, que não cré em mais nada,
correndo atrás de tudo que é milagre!
Eva, em companhia da Mãe, volta à cena. As duas vêm seguidas pela Cigana, que lhes cochicha aos ouvidos.

EVA
- Falas em vão: nós já te conhecemos.

CIGANA
- Eu juro pela minha salvação!
De tão apaixonado, o cavalheiro
daria tudo para vos ter hoje:
vos daria um palácio de princesa,
carruagem para o teatro e os bailes…

MÃE
- Pensando bem, é cem vezes melhor
do que murchar debaixo de uma touca
na loja imunda de algum sapateiro…

CIGANA
- Vede, lá está: procurando por vós!

EVA
- Já me deve ter visto há muito tempo.
Tem mãos finas, um porte de fidalgo…

MÃE
- E o companheiro dele não é mau:
nariz adunco, pernas arqueadas,
mas é um homem vivido, respeitável.
Minha filha: eu vou indo, que o mais certo
é deixar-vos a sós alguns minutos.

CIGANA (a Adão)
- Cá está a menina: linda e suspirosa…

ADÃO
- Que alegria! Vou já falar com ela.

CIGANA
- Mas não se esqueça da intermediária!

LÚCIFER (dando à Cigana algumas moedas)
- Tome o dinheiro, que é do meu amigo,
e mais um aperto de mão, que é meu!

CIGANA
- Ui, que mão dura! (Sai. )

LÚCIFER
      - Terias prazer,
bruxa, se fosses o que finges ser.

EVA (a Adão)
- Não gostaríeis de dar-me um presente?
Esse cosmético aí, vem a calhar.

ADÃO
- O encanto feminino do teu rosto
é um cosmético que não tem igual.
Enquanto isso, o Charlatão retira-se.

EVA
- Vós sois muito gentil…

ADÃO
      - Não me encabules!
Em teu colo porei diamantes, pérolas:
para o embelezar não, que é impossível,
mas por ser o lugar mais adequado.

EVA
- Mais adiante há umas joalherias,
mas são coisas preciosas demais
para uma moça pobre como eu.

ADÃO
- Vamos dar uma olhada!

LÚCIFER
      - Não precisa!
Talvez lhe sirvam as jóias que eu trouxe.
Lúcifer entrega a Eva várias jóias: ela as examina e experimenta com visível prazer.

EVA
- Como são lindas! Vou fazer inveja!

ADÃO
- Mas esse coração de pão-de-mel
não me agrada…

EVA
      - Posso jogá-lo fora,
se não lhe agrada. (Atira-o ao chão.)

LÚCIFER
      - E agora eu vou pisá-lo!
Lúcifer esmaga sob os pés o coração de pão-de-mel.

EVA
- Que foi? Um grito ou uma alucinação?
Trazem, numa carroça, um Condenado, seguido por populares.

VOZES NA MULTIDÃO
- Vamos! - Depressa! - É um covarde, eu não disse?
- Que teimoso! - Anda, vamos atrás dele!

ADÃO
- Por que tanto barulho, tanta pressa?

EVA
- Vão enforcar alguém. É bom já estarmos
aqui, para assistir: é um espetáculo
tão excitante!… E a ocasião é boa
para exibir minhas jóias, também.

ADÃO
- Que crime cometeu esse infeliz?

EVA
- Não sei.

LÚCIFER
      - Não sabe? Eu sei: posso contar.
Esse homem trabalhou por muitos anos
na fábrica de Lovel, respirando
gases de chumbo, que são venenosos;
passou várias semanas no hospital.
À porta da mulher, bateu a fome.
O velho Lovel tinha um filho jovem
e generoso, que soube do caso
e ajudou a mulher a esquecer tudo…

OPERÁRIO 1
- Firmeza, amigo! Morres como um mártir:
teu nome fica brilhando entre nós!

LÚCIFER
- Curou-se o marido, e não achou mais
a esposa, com outro no lugar dele.
Em vão pediu trabalho… Revoltou-se,
e atreveu-se a fazer uma ameaça:
o jovem Lovel respondeu com um tapa.
Perto do homem havia uma faca.
E aí vai ele, agora. O velho Lovel
enlouqueceu…
Nesse momento passa Lovel, com alucinada melancolia.

LOVEL
      - Mentira. Eu, louco? Não!
Só não entendo bem o que cochicha
a ferida no corpo do meu filho…
Fiquem com todos os meus bens, mas façam
eu não a ouvir mais! Prefiro a loucura!

OPERÁRIO 3 (ao Condenado)
- Não temas: um dia serás vingado!

OPERÁRIO 1
- Levanta essa cabeça! Os cães são eles!
O Condenado avança, com seus acompanhantes.

ADÃO
- Por que me atrai uma cena tão triste?
Quem me dirá qual dos dois tem mais culpa?
Ou se a culpa será da sociedade:
na podridão social, pulula o crimé.

LOVEL
- É a sociedade, sim! Toma os meus bens!
Só não quero ouvir mais essa ferida! (Sai.)

EVA
- Vamos depressa, para achar lugar!

ADÃO
-- Agradeço ao Destino o não me ter
feito juiz. Fazer leis, num divã,
ditar sentenças - talvez seja fácil
para um leviano; mas como é difícil
para quem ouve fundo o coração
a esmiuçar-lhe todos os refolhos!

LÚCIFER
- Assim, nenhum processo iria ao fim.
Ninguém pratica o mal só pelo mal:
até o Diabo tem suas razões,
e cada qual julga as suas mais fortes…
Vem o jurisconsulto e corta o nó,
cujos fios nem mil filantropias
seriam capazes de destrinchar.
Nesse ínterim, Adão e Lúcifer e Eva chegaram à Torre, diante de um nicho onde se vê a imagem de uma santa.

EVA
- Vamos parar um pouco, meu amigo:
vou pôr as flores aos pés dessa imagem!

LÚCIFER (à parte)
- Não, Adão! Se o fizer, estamos fritos!

ADÃO
- É uma inocente, e eu não vou impedi-la.

EVA
- Desde criança estou acostumada
a pensar nesta imagem, quando passo,
e agora também vai me fazer bem.
É um momentinho só. Depois, correndo
compensaremos o atraso.
Eva ajeita o ramo de flores ao pé da imagem: as flores murcham instantaneamente, e as jóias, transformadas em lagartixas, escorregam-lhe do pescoço e dos braços.
      - Meu Deus!
Que é isto?

LÚCIFER (a Adão)
      - Eu bem que te avisei.

EVA
      - Socorro!

ADÃO
- Calma, querida: estão todos te olhando…
Vais ter enfeites mil vezes mais ricos!

EVA
- Longe de mim! Socorro, por piedade!
Prestidigitadores e uma bruxa
enganando uma moça de respeito!
Pessoas começam a aglomerar-se. A Cigana aparece, com Guardas.

CIGANA
- Era falso, o dinheiro que me deram:
em minhas mãos, transformou-se em azougue.
Com certeza estão por aqui…

LÚCIFER
      - Talvez
falsa fosse tua mão, não o dinheiro.
(A Adão: )
Depressa, Adão, vamos sumir daqui!
Os dois entram na Torre, enquanto embaixo aumentam a confusão e o barulho. Adão e Lúcifer reaparecem no alto do bastião.

ADÃO
- Mais uma decepção. Julguei bastante
derrubar os espectros do passado,
deixando as forças livres competirem…
Da engrenagem tirei uma das peças
principais, que mantinha a piedade,
e não pus no lugar outra mais forte.
Mas, enfim, que competição é esta
em que um vai, nu, enfrentar outro, armado?
Que independência é esta, onde centenas
passam fome, só porque não se curvam?
Esta é uma briga de cães por um osso!
Sonho, em vez disso, uma comunidade
que ampare sem punir, que anime as gentes
sem assustar, e una todas as forças
em verdadeira colaboração:
um sonho igual, talvez, ao da ciência,
onde a ordem se mantém pela razão.
E isso há de vir: eu sinto que virá!
Leva-me, Lúcifer, a esse lugar!

LÚCIFER
- Homem vão: só porque tua vista curta
só vê lá embaixo uma turba confusa,
já pensas que na oficina da vida
não há ordem nem colaboração.
Repara bem, com os olhos do espírito,
e vê o trabalho que eles realizam:
para eles não, coitados; para nós!
Escurece. Toda a multidão da feira forma um grupo que se põe a cavar uma cova no meio da cena. Dançam à volta dela, e depois pulam dentro, ou mudos ou dizendo cada qual a sua frase.

CORO
- Bate enxada, bate pá,
que é preciso terminar
hoje; amanhã será tarde,
ainda que passem milênios,
e a obra não fique pronta.
Berço ou caixão, tanto faz:
o que num dia termina,
no outro dia recomeça,
satisfeito ou esfaimado,
e amanhã torna a sair
o que hoje tiver entrado.
Um sino dobra a finados.
- Toca o sino. Vem a noite.
Nossa tarefa acabou.
Vamos todos descansar.
Que nesta obra prossigam
os que, para a vida nova,
o amanhã despertar!

TITEREIRO
- Da minha parte, acabou-se a comédia:
fiz rir a tantos, sem me fazer rir!

TAVERNEIRO
- Todos beberam do meu vinho. Agora,
meus queridos fregueses, vou-me embora!

FLORISTA [=MENINA]
- Não tenho mais violetas a vender,
mas no meu túmulo outras vão nascer.

CIGANA
- Queriam conhecer, a todo custo,
o futuro; e agora fogem de susto.

LOVEL
- Riqueza não me deu felicidade:
enfim, vou descansar sem-pagar nada.

OPERÁRIO
- Veio o sábado, a semana acabou,
e para o meu descanso eu também vou.

ESTUDANTE
- Me acordaram de um sonho começado;
vou ver como ele acaba, do outro lado.

SOLDADO
- Eu sempre me julguei muito valente:
derrubou-me um buraco, simplesmente.

PROSTITUTA [=MUNDANA]
- Passou a embriaguez, foi-se a pintura.
Faz frio, aqui. Será mais quente, lá?

CONDENADO
- Em cima deste pó, deixo as algemas:
do outro lado, a Justiça há de ser outra!

CHARLATÃO
- A muitos enganou nosso saber,
porém agora, em face da verdade,
não temos uma palavra a dizer.

EVA
- Que queres a meus pés, abismo hiante?
Não penses que tua sombra me apavora!
Em ti só cai o pó, resto da terra;
eu te transponho, envolta em minha auréola.
O anjo do amor, da poesia e da vida,
me abre caminho para a pátria eterna.
Só o meu sorrir traz lenitivo à terra,
quando, em raio de sol, pousa num rosto…
Deixando cair na cova o véu e o manto, Eva surge aureolada.

LÚCIFER
- Adão, sabes quem é?

ADÃO
      - Ah, Eva? Eva!


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