CENA VII

Em Constantinopla. Praça do Mercado, onde perambulam alguns desocupados. Ao centro, o palácio do Patriarca. À direita, um convento de freiras. À esquerda, um bosque. Adão, como Tancredo, varão na flor da idade, entra garbosamente, com outros Cavaleiros, à frente de uma legião de Cruzados que regressa da Ásia, ao som de tambores e com bandeiras desfraldadas. Como Escudeiro, junto a Adão, Lúcifer. Cai a tarde, depois anoitece.

CIDADÃO 1
- Lá vem mais uma legião de bárbaros.
vamos fechar as portas e as janelas,
antes que queiram saquear de novo!

CIDADÃO 2
- Escondam as mulheres! Essa corja
já conhece as delícias dos serralhos.

CIDADÃO 1
- Para as mulheres, quem vence é que manda.

ADÃO
- Parem! Por que fogem de nós? Têm medo?
Não estão vendo o símbolo sagrado
que nos irmana em prol da mesma causa?
Fomos à Ásia levar nossa fé,
a doutrina do amor, para os pagãos,
que viram balançar o santo berço
do Salvador, conhecerem-lhe a graça.
O amor não reina entre vocês também?

CIDADÃO 1
- Mais de uma vez já nos disseram isso,
depois puseram fogo em nossas casas…
Os Cidadãos dispersam-se. Adão dirige-se aos Cavaleiros.

ADÃO
-Vejam bem: aí está o maldito fruto
da ascensão de tantos saqueadores,
que empunham com má fé a banderia santa
e, bajulando as vaidades do povo,
terminam por se imporem como chefes…
Cavaleiros! Enquanto nossas armas
resplandecerem por servir a Deus,
proteger a mulher e a nossa honra,
estaremos fadados a conter
o demônio hediondo e conduzi-lo
para, contrariando os seus desígnios,
criar algo de grande e nobre, sempre.

LÚCIFER
- Tancredo, falas bem! Mas quando a massa
se recusar a ver em ti um chefe…

ADÃO
- Onde o espírito está, está a vitória!
Posso esmagar a massa…

LÚCIFER
      - E se virtude
ela tiver também? Curvas-te a ela?

ADÃO
- Curvar-me? Por que não erguê-la a mim?
Fugir da luta só porque são poucos
os companheiros, é mesquinharia
igual a não querer ter companheiros
só para não lhes dar parte dos louros.

LÚCIFER
- Eis até onde estragou-se o ideal
pelo qual, nos circos, morreram mártires!
É assim que se liberta o indivíduo?
Estranha espécie de fraternidade!

ADÃO
- Não zombes! Não penses que não alcanço
a doutrina sublime: é o que me guia!
Quem traz consigo a centelha divina
e pode agir, que aja! Quem se eleva
até nós, é acolhido de bom grado:
com um toque de espada o consagramos!
Mas devemos guardar nossos tesouros
contra as agitações que em torno fervem.
Espero ansiosamente pelo tempo
que há de marcar a nossa salvação:
barreiras rompidas e tudo limpo!
Desse tempo eu até duvidaria
se o iniciador da grande obra
não fosse o Filho de Deus, em pessoa…
Amigos; viram como nos acolhem?
Como órfãos, na cidade barulhenta!
Só nos resta armar nosso acampamento
no bosque, entre os pagãos, como já estamos
acostumados… Depois, é possível
que isso passe. Vão indo! Eu vou mais tarde.
Cada um responde por seus comandados!
Os Cruzados acampam.

LÚCIFER
- É pena, as tuas idéias tão lindas
mais uma vez só darem desses frutos
honitos por fora e podres por dentro.

ADÃO
- Basta! Já não crês mais em nada nobre?

LÚCIFER
- Mesmo que eu cresse, que adiantaria?
Se a tua própria raça já não crê…
A Ordem dos Cavaleiros, que edificas
como um farol entre as ondas do mar,
um dia há de apagar-se ou desabar:
para o viajante audaz será um escolho
pior que os que jamais tiveram luz.
Tudo que vive a espalhar benefícios,
o tempo mata: o espírito se extingue
e o corpo fica sendo uma carniça
a desprender mortíferos miasmas
sobre a pureza que aflora em redor.
E assim são transmitidas as grandezas
do passado…

ADÃO
      - Antes que nossa Ordem morra,
suas santas doutrinas talvez possam
converter e pacificar as massas.

LÚCIFER
- Ora, as santas doutrinas! Pois são elas
que põem tudo a perder! Depois de terdes
chegado a elas, por obra do acaso,
viveis sempre a torcê-las, a cindi-las,
a torná-las pontudas e aguçadas.
até virarem loucura ou grilhões.
Vossa mente não é capaz de idéias
exatas, mas viveis a procurá-las
por mero orgulho e em pura perdição.
Fosse esta espada um fio de cabelo
mais grossa, ou menos - a substância é a mesma.
Podemos levar isso ao infinito:
em que ponto estará o limite justo?
Contudo, a intuição logo o percebe
quando acontece uma grande mudança…
Mas por que me esforçar tanto? O discurso
me cansa… Olha tu mesmo, ao teu redor!
Reaparecem alguns Cidadãos.

ADÃO
- Amigos! Meus homens estão cansados,
pedem pousada… Vão negar-lhes isso
aqui, na Capital da Cristandade?

CIDADÃO 3
- Quem nos dera saber se eles não são
mais hereges que os próprios infiéis!

CIDADÃO 4
- Dize-nos em que crês: no Homôusion
ou no Homoiúsion?

ADÃO
      - Não compreendo…

LÚCIFER
- Não dês palpite! O melhor é calar-te.

CIDADÃO 4
- Não sabe: vejam! É herege também!

CIDADÃOS
- Vamos embora trancar nossas casas!
Maldito seja quem lhes der pousada!
Dispersam-se os Cidadãos. O Patriarca sai do seu palácio, com muita pompa e séquito principesco. Atrás dele, um grupo de frades escoltando alguns hereges acorrentados, mais um destacamento de soldados e bandos de populares.

ADÃO
- Estou perplexo. Que príncipe é esse
que vem aí, pomposo e desafiante?

LÚCIFER
- É o Sumo-Sacerdote, sucessor dos Apóstolos.

ADÃO
- E esses homens descalços e horrorosos,
maldosamente e com falsa humildade
escoltando os que vêm acorrentados?

LÚCIFER
- São monges cristãos, da seita dos cínicos.

ADÃO
- Nunca vi disso, nas minhas montanhas…

LÚCIFER
- Logo verás: a peste, como sabes,
se espalha devagar… Mas tem cuidado
para não ofenderes essa gente
tão virtuosa e tão inflexível!

ADÃO
- Que virtude essa corja pode ter?

LÚCIFER
- A virtude da mortificação,
que teu Mestre pregou tão bem na cruz!

ADÃO
- Ele, com isso, salvou todo o mundo!
Mas esses biltres bradam contra Deus,
fazendo pouco das graças divinas.
Quem levanta, contra um mosquito, a arma
feita para enfrentar um urso bravo,
é louco…

LÚCIFER
      - Talvez achem que mosquito
e urso é a mesma coisa: então não podem,
para ostentarem a própria pureza,
mandar para o Inferno os menos puros?

ADÃO
- Eu, como São Tomé, vejo e não creio:
quero olhar de mais perto…
Adão acerca-se do Patriarca.
      - Santo Padre,
somos soldados do Santo Sepulcro,
muito cansados, pedindo pousada,
mas o povo daqui não nos acolhe.
A ti, tão poderoso, eu peço ajuda!

PATRIARCA
- Filho, eu não perco tempo em bagatelas!
Pela glória de Deus e o bem do povo,
eu tenho de julgar esses hereges
que proliferam como ervas daninhas:
por mais que a ferro e fogo os extirpemos,
o Inferno logo nos manda outros tantos!
Mas, se sois mesmo soldados de Cristo,
por que ir buscar tão longe os sarracenos?
O inimigo pior está aqui mesmo:
cercai as aldeias, exterminai-os
todos, mulheres, velhos e crianças!

ADÃO
- Não quererás que morram inocentes…

PATRIARCA
- Também a cobra é inocente em pequena
ou quando perde os dentes do veneno:
deve escapar?

ADÃO
      - Que atrocidade horrível
deve ter acendido tanto ódio
na Igreja que devia ser de amor!

PATRIARCA
- Quem ama não é quem bajula o corpo,
mas aquele que traz a alma de volta,
a ferro e fogo se preciso for,
àquele que disse: “Eu não trago a paz,
mas, ao contrário, a espada e a divisão”.
Adeptos de uma falsa fé na obscura
doutrina da Santíssima Trindade
proclamam o homoiúsion, quando a Igreja
tem no homôusion a verdadeira fé!

OS FRADES
- Morte aos hereges! Já está aceso o fogo!

ADÃO
- Só por causa de um i numa palavra?
Melhor seria dardes vossas vidas
pela defesa do Santo Sepulcro!

VELHO HEREGE
- Satanás, não nos tentes! Pela fé,
nós damos nossa vida onde Deus quer!

UM FRADE
- “Pela fé!” - Que sujeito impertinente!

VELHO HEREGE
- O Concílio de Rímini e outros mais
estão do nosso lado!

UM FRADE
      - Sim, no erro!
E o de Nicéia, e outros ortodoxos,
não confirmam a nossa opinião?

VELHO HEREGE
- Apóstatas! É muita pretensão
discutirem conosco… Vocês têm
algum Doutor da Igreja que se iguale
ao nosso Ário e aos nossos dois Eusébios?

UM FRADE
- E vocês têm alguém como Atanásio?

VELHO HEREGE
- Vocês têm mártires?

UM FRADE
      - Mais que vocês!

VELHO HEREGE
- Mártires que o Demônio seduziu
com visões e levou à danação!
Vocês são é a grande Babilônia,
a meretriz de quem São João diz
que há de sumir da face do planeta!

UM FRADE
- Vocês, o dragão de sete cabeças,
o Anti-Cristo de que fala São João:
celerados, parceiros do Demônio!

VELHO HEREGE
- Ladrões! Víboras! Comilões! Corruptos!

PATRIARCA
- Levem-nos! Já perdemos muito tempo.
Pela glória de Deus, para a fogueira!

VELHO HEREGE
- “Pela glória de Deus”, disseste bem:
pois na glória de Deus tombam as vítimas.
Vocês são fortes, agem como querem;
mas Deus no céu dirá se agiram certo.
Os seus dias de crime estão contados!
Outros batalhadores nascerão
do nosso sangue, pois o ideal não morre,
e esse fogo há de iluminar os séculos.
Vamos, amigos: à morte, com glória!
Os Hereges cantam em coro.

OS HEREGES
- Meu Deus, meu Deus, por que me desamparas? Por que as palavras do meu clamor ficam tão distantes da minha salvação?
Clamo de dia, ó Deus, e não respondes. Clamo de noite, e não tenho sossego.
Mas Tu és santo!
Os Frades irrompem com outro coro, também cantando.

OS FRADES
- Senhor, contende com os que contendem comigo! Peleja contra os que pelejam contra mim!
Embraça o teu escudo e o teu broquel, e vem em meu auxílio!
Empunha a lança e vem barrar a passagem dos meus perseguidores!
O Patriarca e seu séquito, nesse meio tempo, acabaram de desfilar. Alguns Frades, com uns folhetos nas mãos, misturam-se aos Cruzados.

LÚCIFER
- Ficaste mudo? O que é que te preocupa?
Pensas que é uma tragédia? Faz de conta
que é uma comédia, e hás de rir um bocado!

ADÃO
- Não brinques! Se tem gente assim disposta
à pior morte por causa de um i,
que dizer do sublime e do grandioso?

LÚCIFER
- O sublime e grandioso para uns,
talvez seja para outros o ridículo:
um fio de cabelo é o que separa
uma coisa da outra, e quem as julga
é só uma voz dentro do coração:
a consciência - misterioso árbitro
que endeusa, ou mata com sua ironia.

ADÃO
- E eu tinha de ver toda essa maldade:
tantas brigas por um fátuo saber,
e o veneno mortífero espremido
da flor mais rorejada e luminosa?
Nossa fé já foi nova e perseguida:
que criminoso a corrompeu assim?

LÚCIFER
- O criminoso é o próprio triunfo,
com os vários interesses que acarreta.
O perigo é o que une, é o que dá forças
e faz mártires - como esses hereges!

ADÃO
- Por mim, eu jogaria fora a espada
e voltaria ao meu país, no norte:
lá onde, à sombra das florestas virgens,
simplicidade e honra ainda resistem
aos venenos e visgos de hoje em dia…
Se uma voz interior não me soprasse
que é dever meu redimir estes tempos!

LÚCIFER
- Esforço vão! Indivíduo nenhum
pode ir de encontro à época em que nasceu.
O tempo é um rio que leva ou que afoga:
nele se nada, nele ninguém manda.
Os grandes homens de quem fala a História
foram os que entenderam bem seus tempos,
sem forçarem nenhuma idéia nova.
Não amanhece porque o galo canta:
o galo é que canta porque amanhece!
Esses, que seguem para o cadafalso,
com seus grilhões, alvos de zombarias,
só eles enxergam um palmo adiante,
e entre eles amanhece a idéia nova.
Morrem por algo que os seus descendentes
vão respirar junto com o ar das ruas…
Mas chega disso. Olha o acampamento!
Que foram fazer lá esses frades sujos?
Estão vendendo o quê, gesticulando
e gritando como uns loucos varridos?
Vamos, vamos ouvir!
Entre os Cruzados que se ajuntam à sua volta, fala um Frade.

FRADE
      - Soldados, comprem
o Manual da Penitência, para
orientá-los em todas as dúvidas!
Ele diz quanto tempo o libertino,
a falsa testemunha, o assassino,
quem rouba igrejas, vai penar no Inferno!
E diz que o rico pode resgatar
com vinte soldos um ano de pena,
e o pobre com três, e quem não tem nada
resgata com algumas chibatadas…
É um livro precioso: comprem! Comprem!

CRUZADOS
- Me dá um, Padre! - Eu também quero um!

ADÃO
- Quem vende é mau e quem compra é pior.
Pega a espada e acaba com essa feira!

LÚCIFER (perplexo)
- Me perdoe! Esse frade é um velho amigo,
e contra essas coisas eu nada tenho.
A glória de Deus cresce, mas com ela
vai crescendo também o meu prestígio…
Tu é que ficas para trás, Adão!
Eva, como Isaura, e Helena, sua camareira, correm para perto de Adão, aos gritos, perseguidas por alguns Cruzados, que logo desaparecem ao vê-lo. Eva cai prostrada, e Adão ampara-a com um braço.

EVA
- Socorro, Capitão! (Tem um desmaio.)

ADÃO
      - Vamos, senhora!
Não há nada a temer! Levante os olhos:
encantadores! O que foi que houve?

HELENA
- Estávamos gozando a natureza,
tranqüilamente sentadas na grama,
à sombra fresca do nosso jardim,
e escutando cantar o rouxinol,
quando vimos dois olhos faiscantes
de selvagem paixão, atrás da moita…
Assustadas corremos, perseguidas
por quatro cruzados esbaforidos:
pouco faltou para nos agarrarem!

ADÃO (a Eva)
- Nem sei se devo desejar que acordes
e me deixes, talvez, como num sonho…
Como é que um corpo pode ser tão nobre,
tão inefável e tão sedutor?

LÚCIFER
- “Corpo inefável"? Jamais poderia
o destino punir um namorado
melhor do que tornando realidades
as coisas que ele diz de sua amada.

ADÃO
- Tenho a impressão de que já te vi antes:
ante o trono de Deus, juntos, nós dois…

LÚCIFER
- Mas, por favor, não te esqueças: o amor,
por mais doce que seja para dois,
para um terceiro não tem graça alguma!

ADÃO
- Ela está abrindo os olhos e sorrindo,
graças aos céus!

EVA
      - Tu me salvaste! E agora,
como recompensar-te?

ADÃO
      - Já não bastam,
como prêmio, as palavras dos teus lábios?

LÚCIFER (a Helena)
- É um prêmio escasso… Mas nem isso eu ganho?

HELENA
- Que razão tenho de ser grata a ti?

LÚCIFER
- Pensas então que o nobre cavaleiro
salvou a ti também? Que presunção!
Se quem salva a patroa é o cavaleiro,
quem salva a camareira é o escudeiro.

HELENA
- Que é que eu ganho? Se for agradecida,
corro o mesmo perigo a que escapei;
e se não for, também estou perdida.
Aqueles quatro até que eram simpáticos…

ADÃO
- Nobre senhora, aonde devo levar-te?

EVA
- O portão do convento é logo adiante…

ADÃO
- Convento? Mas o portão de um convento
não vai barrar toda a minha esperança?
Me dá uma prenda para a minha cruz;
assim, quando ela me chamar à luta,
relembrará meu sonho mais bonito,
para que eu não me canse de esperar,
tantos anos depois, a recompensa.

EVA
- Toma esta fita!

ADÃO
      - Negra como a noite?
O que eu peço é esperança, não é luto.

EVA
- Esta é a minha prenda, e não há outra:
não floresce a esperança num convento.

ADÃO
- Nem o amor… Mas, onde estiveres tu,
o amor não poderá deixar de estar.
Pelas roupas, tu não és freira ainda!

EVA
- Não me tortures com perguntas vãs,
que eu sofro ao ver crescer teu sofrimento!

LÚCIFER (a Helena)
- Vão te fechar também, aqueles muros?

HELENA
- Sim, mas não vou jogar a chave ao mar…

LÚCIFER
- Pena! Eu até poderia compor
uma linda elegia…

HELENA
      - Mentiroso!

LÚCIFER
- Por quê? Não seria uma bela idéia
ir ao fundo do mar buscar tua chave?

HELENA
- Eu não te peço tanto…

LÚCIFER
      - Lá vou eu!
Os monstros abissais estão à espreita.

HELENA
- Volta, que eu morro de medo! Prefiro
deixar a minha chave na janela.

ADÃO (a Eva)
- Dize-me pelo menos o teu nome,
para eu poder incluí-lo em minhas preces
e orar por ti, já que não me permites
compartilhar da tua triste sorte!

EVA
- Meu nome é Isaura, cavaleiro. E o teu?
Rezar é mais ofício de uma freira…

ADÃO
- Eu sou Tancredo.

EVA
      - Então adeus, Tancredo!

ADÃO
- Isaura, não me deixes tão depressa,
senão terei de maldizer o nome
que puseste na tua despedida!
Foi pouco o tempo, mesmo para um sonho;
e como prolongá-lo, se em mistério
te fechares e eu não puder bordá-lo
com o fio de ouro de tua vida?

EVA
- Queres saber? Ouve! Meu pai também
foi Cavaleiro do Santo Sepulcro.
Certa noite, quando se viu cercado
pelo inimigo, num feroz ataque,
sem nenhuma esperança de escapar,
fez à Virgem Maria uma promessa:
me consagrar a ela, eu ainda criança,
se ele pudesse retornar à pátria.
Retornou ele, e eu selei a promessa
com a hóstia sagrada…

ADÃO
      - Mãe Santíssima:
Tu, que és a encarnação do amor mais puro,
não Te ofendeste e não viraste o rosto
a essa promessa que era um sacrilégio
a Te manchar a virtude e a fazer,
da graça do céu, triste maldição?

HELENA (a Lúcifer)
- E a minha história, não queres que eu conte?

LÚCIFER
- Eu já sei: amaste e foste traída,
tornaste a amar e a traição foi tua,
e amaste mais e mais, até cansar:
teu coração é de mil inquilinos!

HELENA
- É estranho! Não tens partes com o Diabo?
Só não te achava tão modesto a ponto
de crer meu coração vazio agora…

LÚCIFER (a Adão)
- Senhor, depressa! Assim, não partes nunca
e eu acabo ganhando o que não quero!

ADÃO (a Eva)
- Cada palavra tua, Isaura, é um ferro
a trespassar meu coração. Querida,
adoça este veneno com teu beijo!

EVA
- Que me pedes? Não sabes do meu voto?

ADÃO
- E acaso ele proíbe que eu te ame?

EVA
- Tens sorte: que farei para esquecer-te?
Agora eu vou, senão faltam-me as forças.
Tancredo, adeus! No céu, nós nos veremos!

ADÃO
- Adeus! Guardo a lembrança deste dia!
Eva entra no convento. Helena procura atrair Lúcifer.

HELENA (à parte)
- Bobão! E eu, faço tudo?
(Em voz alta:)
      A chave fica
na janela: eu não vou jogá-la ao mar!
Helena entra no convento, atrás de Eva.

ADÃO (voltando à realidade)
- Vamos, então!

LÚCIFER
      - Agora é muito tarde.
Vês que loucos os homens, teus iguais?
Ora vêem a mulher como instrumento
de seus instintos bestiais, e apagam
das faces delas, com mão rude, o pólen
da poesia, a si mesmos privando
das mais graciosas flores do amor;
- ora a põem no altar, como a uma deusa,
por ela sangram e lutam em vão,
enquanto os beijos dela estéreis murcham…
Por que não vêem nela a mulher, apenas,
com o lugar e a função que lhe são próprias?
Enquanto isso, escureceu por completo a cena. A Lua brilha no firmamento. Isaura e Helena aparecem a uma janela.

EVA
- Ele me olhou trêmulo de paixão:
eu vi o herói tremer diante de mim!
Mas a virtude e a fé mandam que eu morra
aqui, como vítima consagrada.

HELENA
- O nosso sexo é doido de espantar:
se consegue romper os preconceitos,
corre atrás do prazer, que nem as feras,
arranca a máscara da dignidade
e chafurda na lama com desprezo;
se não consegue, teme a própria sombra,
deixa murchar estéreis seus encantos,
e se nega ao prazer próprio e ao alheio…
Por que não opta pelo meio termo?
Que mal pode fazer uma aventura,
um caso discreto - isso eu não entendo,
já que a mulher também não é só espírito!

EVA
- Espia se ele não está por perto!
Será que foi-se embora tão depressa?
Quisera ouvir-lhe a voz mais uma vez…

ADÃO (a Lúcifer)
- Espia se ela não chega à janela!
Talvez espere um derradeiro olhar…
Quisera vê-la uma vez mais! - Isaura,
não me leves a mal se ainda não fui…

EVA
- Melhor seria, para os dois, que fosses:
refaz-se logo o coração ferido,
mas, ferido de novo, dói em dobro!

ADÃO
- Não tens medo de olhar a noite imensa
a pulsar como um coração amante,
quando, a nós dois, o amor é proibido?
Não te assustas com tanto encantamento?

EVA
- Tudo isso vibra em mim também, mas como
uma visão do céu baixando à Terra!
Ondula no ar uma linda canção,
vejo mil anjos sorrindo e jogando
beijos fraternos por cima das árvores…
Mas nada disso é para nós, Tancredo!

ADÃO
- Por que não? É esse muro que me impede?
E eu não posso vencer essa trincheira,
eu que venci tantas dos infiéis?

LÚCIFER
- Não podes: é no espírito da época,
bem mais forte que tu, que ele se apóia!

ADÃO
- Quem é capaz de dizer isso a mim?
Ao fundo, alteiam-se as labaredas de uma fogueira. Os Hereges cantam em coro, ao longe; depois cantam os Frades, em coro.

CORO DOS HEREGES
- Senhor, livra da espada a minha vida e das presas do cão a minha alma!
Vem-me salvar das garras do leão e dos chifres dos búfalos bravios!
Aos meus irmãos hei de louvar Teu nome e na congregação Te exaltarei!

EVA
- Deus, perdão para as almas em pecado!

ADÃO (com um arrepio)
- Canção terrível!

LÚCIFER
      - Vossa marcha nupcial…

ADÃO
- Dê no que der, eu não recuarei:
por meu amor, estou disposto a tudo!

CORO DOS FRADES
- Cubram-se de vexame e de vergonha os que se regozijam com o meu mal!
Cubram-se de ignominia e de pejo os que se engrandecem contra mim! Cantem rejubilados e se alegrem os que em minha virtude têm prazer! E digam: “Louvado seja o Senhor, que se compraz em ver seu servo próspero!”
Ao ter início este coro, Adão, que se aproximara do portão do convento, detém-se. Ouve-se o pio de uma coruja, do alto da torre. Bruxas cruzam pelo ar. Em frente ao portão, um esqueleto, saído do chão, levantase e ameaça a Adão.

EVA (batendo a janela)
- Meu Deus, valei-nos!

CAVEIRA (a Adão)
- Sai deste lugar sagrado!

ADÃO
- Quem és tu, monstro?

CAVEIRA
      - Sou o que há de estar
presente em teus beijos e abraços, sempre!

BRUXAS (gargalhando)
- Plantou doçuras e colhe amarguras!
Dos ovos da pombinha, nascem cobras!
Isaura, é por ti que estamos chamando!

ADÃO
- Hediondas figuras! Fostes vós
que mudastes, ou quem mudou fui eu?
Vos conheci sorridentes e afáveis…
Onde está a realidade? Onde está o sonho?
Vosso poder me paralisa o braço!

LÚCIFER
- O acaso põe-me em boa companhia,
uma sorte que espero há tanto tempo:
um lindo exército de feiticeiras
que vencem de longe, em libertinagem,
a ninfa mais despida… E a velha Morte,
horrível companheira, que com sua
caricatura de austera virtude,
faz com que os filhos da Terra a detestem…
Eu vos saúdo! É pena eu não ter tempo
para batermos um papo esta noite.
A Morte e as Bruxas desaparecem.
(a Adão)

- Vamos, Tancredo! A tua namorada
bateu a janela. Por que ficarmos
aqui, ao relento, com este vento?
Vais acabar ganhando um resfriado!
E Helena vem aí: como é que eu faço?
Onde se viu Diabo apaixonado?
Incorreria em ridículo eterno
e perderia todos os poderes!
Pois é: o homem, com sua alma de fogo,
anseia pelo amor, languidamente,
e só colhe amarguras… E o Diabo,
com sua alma de gelo, mal consegue
ver-se livre das chamas da paixão!

ADÃO
- Lúcifer, leva a outra existência!
Tanto lutei por santos ideais,
e os vi malditos pela mesquinhez:
com Deus na boca, homens matando o Homem,
muito abaixo do plano do meu sonho.
Quis sublimar os prazeres da vida,
e eles foram tachados de pecado.
Quis dar nobreza à Ordem dos Cavaleiros,
e me apunhalam! Quero um mundo novo!
Já demonstrei bastante o meu valor:
soube lutar e soube renunciar.
Posso, sem pejo, abandonar o posto.
Não quero mais me entusiasmar por nada:
o universo que gire como queira,
já não me empenho em consertar-lhe as rodas
e indiferente hei de vê-lo ir aos trancos…
Estou exausto - o que eu quero é descanso!

LÚCIFER
- Então, descansa!… Mas custa-me crer
que o teu espírito, inquieto e forte,
te deixe descansar… Vem, Adão: vamos!


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